ANÁLISE CRÍTICA E RECONCILIAÇÃO MEDICAMENTOSA
IMPACTO DA FARMÁCIA CLÍNICA NA SEGURANÇA DO PACIENTE
Resumo
ANÁLISE CRÍTICA E RECONCILIAÇÃO MEDICAMENTOSA: IMPACTO DA FARMÁCIA CLÍNICA NA SEGURANÇA DO PACIENTE
Sebastião Domingos Soares Neto
Farmacêutico, Responsável Técnico da Farmácia - CEJAM, Pronto-Socorro Arnaldo de Figueiredo Freitas, Barueri/SP.
RESUMO
A divergência não intencional entre os medicamentos de uso domiciliar e os prescritos no ambiente hospitalar representa uma das principais causas de eventos adversos evitáveis durante a transição do cuidado. O objetivo deste trabalho é descrever a implementação da análise crítica de prescrições e da reconciliação medicamentosa promovida pela Farmácia Clínica em um pronto-socorro de alta complexidade. A metodologia fundamentou-se em um estudo descritivo do tipo relato de experiência sobre a estruturação do fluxo de anamnese farmacológica, verificação do histórico de uso, comparação rigorosa com a prescrição médica de admissão e intersecção de intervenções clínicas. Os resultados demonstraram uma elevada taxa de identificação e interceptação de discrepâncias não intencionais, tais como omissão de fármacos de uso contínuo, duplicidade terapêutica, inadequação de dose e inconsistências de aprazamento. Conclui-se que a atuação ativa do farmacêutico clínico no processo de reconciliação e validação de prescrições atua como uma barreira assistencial indispensável, reduzindo os riscos de reinternação e consolidando a segurança do paciente nas etapas críticas de urgência e emergência.
INTRODUÇÃO
A transição do cuidado — momento em que o paciente é admitido, transferido ou recebe alta do serviço de saúde — é reconhecida globalmente como uma das etapas mais vulneráveis para a ocorrência de erros de medicação. Estudos demonstram que mais de 50% dos pacientes hospitalizados apresentam ao menos uma discrepância não intencional entre os medicamentos de uso habitual e os prescritos na admissão hospitalar (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).
Em unidades de pronto-socorro e emergência, o ambiente dinâmico, o fluxo intenso de atendimentos e a escassez de tempo aumentam substancialmente a probabilidade de falhas de comunicação referentes ao histórico farmacoterapêutico do paciente. A omissão não justificada de medicamentos de uso contínuo (como anti-hipertensivos, hipoglicemiantes, anticonvulsivantes e anticoagulantes) pode resultar na exacerbação de patologias pré-existentes ou no surgimento de novos eventos adversos (BRASIL, 2013).
Nesse cenário, a Farmácia Clínica desempenha papel estratégico através da Análise Crítica da Prescrição e da Reconciliação Medicamentosa. No Pronto-Socorro Arnaldo de Figueiredo Freitas, sob gestão do CEJAM em Barueri/SP, estruturou-se um serviço focado na busca ativa do histórico medicamentoso e na validação clínica das prescrições de admissão e observação, visando garantir a continuidade terapêutica segura.
OBJETIVO
Descrever o processo de implementação da Análise Crítica de Prescrições e da Reconciliação Medicamentosa pela Farmácia Clínica em um Pronto-Socorro, avaliando seu impacto na prevenção de divergências não intencionais e na gestão da segurança do paciente.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo e aplicado, estruturado como relato de experiência sobre a padronização das rotinas de farmácia clínica no Pronto-Socorro Arnaldo de Figueiredo Freitas (CEJAM, Barueri/SP). A intervenção foi organizada em quatro etapas operacionais:
- Entrevista e Anamnese Farmacológica: Realização de entrevista clínica com o paciente, acompanhante ou cuidador na admissão do pronto-socorro para levantamento detalhado da medicação de uso habitual (nome, dose, posologia, indicação e adesão).
- Levantamento do Histórico e Fontes de Informação: Confronto das informações autorreferidas com prescrições anteriores, receitas médicas trazidas pelo paciente, relatórios da Atenção Primária à Saúde (APS) ou consultas ao prontuário eletrônico.
- Conciliação e Análise Crítica da Prescrição: Comparação sistemática entre a lista do histórico medicamentoso do paciente e a prescrição médica hospitalar de admissão, identificando discrepâncias intencionais (justificadas pela condição clínica) e não intencionais.
- Intervenção Farmacêutica e Validação: Discussão e alinhamento imediato com a equipe médica nos casos de discrepâncias não intencionais identificadas (omissão, duplicidade, dose inadequada, interação medicamentosa grave ou ajuste renal pendente), formalizando o registro no prontuário.
DESENVOLVIMENTO
A análise crítica das prescrições médicas vai além da simples verificação de legibilidade e dosagem: envolve a avaliação clínica do perfil do paciente, suas funções renais e hepáticas, alergias pregressas e a adequação das vias de administração. Na urgência, essa análise atua como um filtro rigoroso antes do início da farmacoterapia hospitalar.
A reconciliação medicamentosa complementa esse processo ao assegurar que nenhum fármaco essencial de uso crônico seja omitido sem justificativa terapêutica explícita. Quando o farmacêutico clínico atua diretamente na admissão, é possível identificar prontamente se a ausência de um medicamento decorre de uma decisão médica deliberada ou de uma falha no levantamento do histórico clínico.
RESULTADOS
A estruturação das rotinas de reconciliação medicamentosa e análise farmacêutica na unidade trouxe resultados expressivos para a qualidade assistencial e a segurança do paciente:
- Interceptação Precoce de Erros de Omissão: Grande parte das intervenções farmacêuticas esteve relacionada à reinserção de medicamentos de uso contínuo (principalmente para doença cardiovascular e diabetes) omitidos na admissão.
- Prevenção de Duplicidades Terapêuticas: Identificação de situações onde fármacos de classes idênticas eram prescritos simultaneamente por nomes genéricos e comerciais distintos.
- Ajuste Posológico e de Função Renal: Adequação de doses de antimicrobianos e outros fármacos de margem terapêutica estreita com base em exames laboratoriais recentes.
- Fortalecimento do Diálogo Multiprofissional: Alta taxa de aceitabilidade das recomendações farmacêuticas pelo corpo médico, estabelecendo uma relação de cooperação e confiança clínica.
- Registro e Rastreabilidade Assistencial: Padronização de formulários de reconciliação integrados ao prontuário, garantindo a continuidade do cuidado caso o paciente seja transferido para a rede hospitalar.
DISCUSSÃO
Os resultados observados corroboram a literatura internacional e as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), que preconizam a Reconciliação Medicamentosa como o Terceiro Desafio Global de Segurança do Paciente (“Medicamentos sem Danos”). A atuação do farmacêutico clínico na transição do cuidado previne que erros de transição atinjam o paciente e gerem custos desnecessários com o tratamento de complicações evitáveis.
A integração da farmácia clínica à rotina do pronto-socorro transforma a validação da prescrição em uma etapa proativa de prevenção de danos, alinhando a prática assistencial às diretrizes do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e aos padrões da Resolução RDC nº 36/2013 da ANVISA.
CONCLUSÃO
A implementação da Análise Crítica e da Reconciliação Medicamentosa conduzida pela Farmácia Clínica no Pronto-Socorro Arnaldo de Figueiredo Freitas provou ser uma estratégia de alto valor assistencial e fundamental na gestão de riscos hospitalares.
A presença ativa do farmacêutico no momento da admissão assegura a continuidade terapêutica, reduz discrepâncias não intencionais e promove o uso racional de medicamentos. Recomenda-se a consolidação contínua dessa prática e seu fortalecimento nas etapas de transferência interna e alta hospitalar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Brasília, DF: ANVISA, 2013.
CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA (CFF). Resolução nº 585, de 29 de agosto de 2013. Regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico. Brasília: CFF, 2013.
INSTITUTE FOR SAFE MEDICATION PRACTICES (ISMP). Reconciliação Medicamentosa: Garantindo a Segurança na Transição do Cuidado. Boletim ISMP Brasil, v. 10, n. 2, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Medication Without Harm: Third Global Patient Safety Challenge. Geneva: World Health Organization, 2023.
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