DA SOBERANIA MÉDICA À CONSTRUÇÃO INTERDISCIPLINAR
Reestruturação Diagnóstica em um CER
Palavras-chave:
Reabilitação, Equipe de Assistência ao Paciente, Diagnóstico DiferencialResumo
Historicamente, a definição nosológica em saúde esteve assentada na centralidade da decisão médica isolada. Contudo, na reabilitação infantojuvenil que acolhe desde a primeira infância até a transição para a vida adulta, a complexidade dos transtornos do neurodesenvolvimento impõe uma leitura que ultrapassa consultas pontuais, sob o risco de rotulações precoces em crianças ou mascaramentos clínicos em adolescentes. O objetivo deste trabalho é relatar a experiência de implantação de um modelo de deliberação diagnóstica compartilhada em um Centro Especializado em Reabilitação (CER) em São Paulo/SP, integrando equipe médica e terapeutas na investigação de casos complexos. Trata-se de um relato de intervenção clínica e gerencial estruturado em quatro eixos: colegiado clínico obrigatório (discussão com a equipe médica e ao menos três categorias terapêuticas antes da emissão do laudo); canal de troca contínuo e não linear ao longo do acompanhamento; diferenciação longitudinal do desenvolvimento (avaliando linguagem, sensorialidade, funcionalidade, motricidade, dinâmica familiar e subjetividade segundo o ciclo vital); e gestão de agenda com tempo institucional protegido para reuniões clínicas. Como resultados, a circulação precoce de impressões clínicas possibilitou capturar nuances do cotidiano assistencial inacessíveis à consulta médica isolada, qualificando o diagnóstico diferencial tanto na infância quanto em adolescentes próximos da vida adulta. A escuta multiprofissional consolidou-se como elemento deliberativo legítimo, promovendo horizontalidade, corresponsabilização e maior respaldo ético na devolutiva familiar e na elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS). Conclui-se que superar a soberania médica por meio de dispositivos colegiados qualifica o processo diagnóstico no SUS, transformando o laudo em instrumento ético para a autonomia e o cuidado singular.
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