Intervenção Precoce no Risco Psíquico
O Tratamento Antes do Diagnóstico na Primeira Infância
Palavras-chave:
intervenção precoce, desenvolvimento infantil, ReabilitaçãoResumo
Na reabilitação tradicional, a intervenção comumente aguarda a consolidação de um diagnóstico formal tardio. Contudo, na faixa etária de 0 a 3 anos, a intensa neuroplasticidade e os processos de estruturação psíquica impõem urgência ética: sinais de alarme relacional exigem cuidado imediato para evitar a cristalização de impasses em patologias estruturantes crônicas. O objetivo deste trabalho é relatar a experiência de estruturação de um fluxo assistencial de intervenção precoce interdisciplinar para bebês e crianças de 0 a 3 anos com indicadores de risco psíquico em um Centro Especializado em Reabilitação (CER) em São Paulo/SP, priorizando o início do tratamento sem a exigência de laudo prévio. Trata-se de um relato de experiência institucional estruturado em três eixos: acolhimento fundamentado em indicadores clínicos relacionais (falhas de espelhamento, alterações de tônus, prejuízos na atenção compartilhada e empobrecimento do olhar); cuidado conjunto transdisciplinar (Psicologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Nutrição e Educação Física) centrado na díade bebê-família; e monitoramento longitudinal via prontuário eletrônico e auditoria clínica, realizando a investigação diagnóstica de forma concomitante ao cuidado. O seguimento clínico estruturou a linha de cuidado de 205 crianças acolhidas com desarmonia interativa ou risco psíquico inicial, das quais 87 ingressaram diretamente como bebês de protocolo. Como resultados, 51,0% dos casos avaliados (103 crianças) apresentaram superação ou atenuação do risco relacional inicial. Entre os casos com percurso finalizado, alcançaram-se 79 altas clínicas qualificadas (57,2%), demonstrando ganhos expressivos na funcionalidade infantil e na redução da angústia parental. Nos quadros que demandaram definição nosológica, a assistência precoce mitigou a iatrogenia das filas de espera do SUS. Conclui-se que intervir no risco psíquico antes da rotulação nosológica sustenta uma prática ética centrada no sofrimento do sujeito e nos laços primordiais, demonstrando alta efetividade clínica no Sistema Único de Saúde.
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